A política brasileira precisa voltar a olhar para o povo
Por Dom Murilo Paiva
Arcebispo Metropolitano de São Paulo
A política brasileira atravessa mais uma vez um período de grandes tensões. O país parece dividido entre discursos que, muitas vezes, transformam o adversário em inimigo e fazem da política não um instrumento para servir ao povo, mas um campo permanente de disputa.
Como homem de Igreja, acredito que não podemos ser indiferentes diante da realidade social. A fé cristã nos recorda constantemente que não existe verdadeira paz quando milhões de pessoas ainda enfrentam a pobreza, a fome, a falta de moradia, o desemprego e a dificuldade de acesso a serviços públicos dignos.
É por isso que vejo com simpatia uma perspectiva política que coloque os pobres no centro das decisões. Não por partidarismo, mas porque o Evangelho nos ensina a olhar primeiro para aqueles que mais sofrem. A opção pelos pobres não é uma moda ideológica: é uma exigência moral da fraternidade.
O Brasil não pode aceitar que a desigualdade seja tratada como algo natural. Não é natural que alguns tenham oportunidades praticamente ilimitadas enquanto outros precisem lutar diariamente pelo mínimo. A própria Constituição estabelece direitos sociais fundamentais e reconhece a dignidade humana como um dos fundamentos da República.
Defender políticas públicas fortes nas áreas da saúde, educação, assistência social, trabalho e moradia não significa defender um Estado sem limites. Significa compreender que o Estado existe para servir à sociedade e, sobretudo, para proteger aqueles que possuem menos condições de se proteger sozinhos.
Ao mesmo tempo, a esquerda brasileira também precisa fazer um exame de consciência. Não basta falar em justiça social. É preciso administrar bem os recursos públicos, combater a corrupção, respeitar as instituições, ouvir quem pensa diferente e apresentar soluções responsáveis para os problemas econômicos do país. A defesa dos pobres não pode ser separada da responsabilidade.
Da mesma maneira, precisamos rejeitar a ideia de que todo aquele que pensa diferente é inimigo. Uma democracia madura não exige que todos pensem da mesma maneira. Exige que saibamos conviver, dialogar e disputar ideias sem destruir a dignidade de quem está do outro lado.
Tenho especial preocupação quando a política se transforma em uma guerra de ódios. Quando alguém passa a acreditar que somente o seu grupo ama o Brasil, alguma coisa já se perdeu. O Brasil pertence a todos: aos que votam na esquerda, aos que votam na direita e também aos que não se identificam com nenhuma dessas posições.
A política precisa voltar a ser, antes de tudo, serviço.
Não podemos permitir que os pobres sejam lembrados apenas durante as campanhas eleitorais. Não podemos transformar a fome em estatística, o desemprego em número ou a periferia em simples cenário de discursos. Cada número representa uma pessoa, uma família, uma história e uma esperança.
Sou daqueles que acreditam que uma sociedade mais justa é possível. Acredito em políticas que diminuam desigualdades, ampliem oportunidades e façam com que o crescimento econômico chegue à mesa das famílias brasileiras. Acredito também que democracia, liberdade e justiça social não são adversárias entre si. Pelo contrário: precisam caminhar juntas.
O Brasil não precisa de políticos que alimentem permanentemente a divisão. Precisa de homens e mulheres capazes de construir pontes.
E, para nós cristãos, existe uma pergunta que deveria estar acima de todas as disputas partidárias: o que estamos fazendo para que o nosso país seja mais humano?
Se a política não consegue responder a essa pergunta, perde sua razão mais nobre.
Que o Brasil possa reencontrar o caminho do diálogo, da solidariedade e da esperança. Que nunca nos acostumemos com a pobreza. Que nunca tratemos a desigualdade como destino. E que jamais esqueçamos que, por trás de cada decisão política, existe sempre uma pessoa que poderá viver melhor ou pior por causa dela.
A política só encontra sua verdadeira grandeza quando deixa de perguntar “quem venceu?” e começa a perguntar “quem foi servido?”.
Dom Murilo Paiva
Arcebispo Metropolitano de São Paulo
