A beleza de estar só
Há uma diferença muito grande entre estar sozinho e viver a solitude. A solidão, muitas vezes, nos pesa; a solitude, quando bem vivida, pode nos ensinar. Há momentos em que Deus permite que o barulho ao nosso redor diminua para que possamos finalmente escutar aquilo que o nosso coração há tanto tempo tenta dizer.
Vivemos em um tempo de muitas conexões, mas nem sempre de verdadeiros encontros. Estamos cercados de pessoas, mensagens, compromissos e vozes, mas, às vezes, não conseguimos ouvir a nossa própria alma. Por isso, aprender a estar só não significa afastar-se do mundo, mas encontrar um lugar interior onde possamos simplesmente ser.
Na solitude, descobrimos que não precisamos estar sempre acompanhados para sermos amados. Descobrimos também que o silêncio não é vazio. O silêncio pode ser oração. Pode ser descanso. Pode ser aquele lugar sagrado onde Deus nos encontra sem precisar de muitas palavras.
Jesus também procurava momentos de silêncio e recolhimento. Antes de grandes decisões, depois de grandes jornadas, Ele se retirava para estar a sós com o Pai. Há uma sabedoria nisso: quem nunca aprende a parar pode acabar vivendo uma vida inteira correndo atrás de coisas que nem sabe mais por que procura.
A solitude nos devolve ao essencial. Ela nos ensina a reconhecer nossas fragilidades sem vergonha, nossas perguntas sem medo e nossos sonhos sem a necessidade de explicá-los a todos. E, sobretudo, nos recorda que existe uma Presença que permanece quando todas as outras presenças se afastam.
Talvez você esteja atravessando hoje um tempo de silêncio. Talvez algumas pessoas tenham partido, talvez determinados vínculos tenham mudado, talvez você esteja simplesmente precisando de um pouco de distância do barulho. Não tenha medo desse momento. Nem todo silêncio é abandono. Às vezes, é Deus preparando dentro de nós um espaço novo.
Aprendamos, portanto, a não fugir de nós mesmos. A solitude pode ser uma escola de maturidade, de oração e de liberdade. Quem aprende a estar consigo mesmo também aprende a estar melhor com os outros.
E quando o coração compreender isso, perceberá uma coisa muito bonita: estar só não significa estar sem ninguém. Para quem crê, mesmo no silêncio mais profundo, Deus continua ali.
Dom Murilo Paiva
Arcebispo Metropolitano de São Paulo
