Meditação Franciscana Diária: A DEMOCRACIA CUMPRIU SEU PAPEL, E AGORA, QUEM OLHARÁ PELOS POBRES?

IN MEDITAÇÃO FRANCISCANA DIÁRIA - PAZ E BEM - 28/10/2026

A DEMOCRACIA CUMPRIU SEU PAPEL. E AGORA, QUEM OLHARÁ PELOS POBRES?

“Ele te mostrou, ó homem, o que é bom e o que o Senhor exige de ti: praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com teu Deus.” (Mq 6,8)

Queridos irmãos e irmãs, Paz e Bem!

O período eleitoral passou, as escolhas foram feitas e a democracia cumpriu seu papel. Mas, passada a agitação das campanhas, das disputas e dos discursos, permanece uma pergunta que não pode ser silenciada: e os pobres, como ficam?

A vida do povo não entra em recesso depois das eleições. A fome não espera a próxima campanha. A mãe que não tem o que colocar na mesa continua precisando de pão. A pessoa sem moradia continua procurando um teto. O trabalhador explorado continua esperando dignidade, e tantas famílias continuam lutando pelo direito à saúde, à educação, à moradia e a uma vida verdadeiramente humana.

É justamente agora que precisamos voltar nossos olhos para aqueles que, tantas vezes, são lembrados nos palanques, mas esquecidos nos gabinetes. A justiça não pode ser apenas uma palavra bonita nos discursos, nem a esperança pode se limitar ao instante em que depositamos nosso voto. A verdadeira justiça precisa alcançar a vida concreta das pessoas, sobretudo daqueles que carregam nos ombros o peso da desigualdade!

A eleição termina, mas a missão de construir uma sociedade mais justa continua.

Como franciscanos, somos chamados a olhar para a realidade com os olhos de Cristo e com o coração de São Francisco de Assis. O Pobrezinho de Assis não contemplava os pobres de longe, como se fossem apenas um problema social a ser resolvido por outras pessoas. Ele se aproximava, tocava suas feridas, partilhava sua vida e reconhecia neles a presença de Cristo.

É essa a conversão que o Evangelho nos pede: não basta falar dos pobres; é necessário caminhar com eles. Não basta defender a dignidade humana em palavras; é preciso lutar para que ela seja respeitada. Não basta rezar pela paz se permanecemos indiferentes diante das estruturas que produzem miséria, exclusão e sofrimento.

Por isso, este é o momento de agir. De acompanhar aqueles que foram eleitos, de cobrar responsabilidade, de defender políticas públicas que protejam a vida e de permanecer ao lado das comunidades mais vulneráveis. A esperança cristã não é ingenuidade, tampouco conformismo. É uma esperança que trabalha, denuncia, acolhe, organiza e transforma.

Não nos cabe transformar o Evangelho em instrumento de um partido, mas também não podemos aceitar uma fé indiferente à realidade do povo. Nossa fidelidade é a Jesus Cristo, e essa fidelidade nos compromete com a justiça, com a paz e com a defesa incondicional da dignidade humana. É preciso reconhecer o que há de bom, denunciar o que fere a vida e jamais permitir que as diferenças políticas destruam nossa capacidade de reconhecer no outro um irmão.

A justiça não se encerra nas urnas. Ela começa a mostrar seu verdadeiro rosto quando chega à mesa de quem tem fome, à casa de quem não tem moradia e à vida de quem sempre foi deixado para trás.

Porque, no fim, não será suficiente perguntar em quem votamos, quais disputas vencemos ou quais discursos nos convenceram. Precisaremos perguntar o que fizemos para que os pobres vivessem com mais dignidade, para que os famintos encontrassem pão e para que os esquecidos voltassem a ter esperança.

E, diante dessa pergunta, que a nossa resposta seja a própria vida.





+ Frei Dom Lorenzo Maria Ravassi
Arcebispo Metropolitano Eleito de São Paulo
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