ARTIGO: FRANCISCO NOS ENSINA A ESCOLHER COM CONVICÇÃO

 

A todos que este artigo lerem, saúde, paz e benção Arquiepiscopal.
São Francisco de Assis, Rogai por nós!

Quando Francisco nos ensina a escolher sem deixar de amar

Em tempos de eleição, quando as opiniões se dividem, os discursos se acaloram e, muitas vezes, até as amizades parecem ameaçadas pelas diferenças políticas, talvez seja necessário voltar o nosso olhar para um homem que viveu há mais de oito séculos, mas que ainda tem muito a nos ensinar: São Francisco de Assis. Francisco não nos deixou partidos, candidatos ou programas de governo. Deixou-nos algo muito mais profundo: um coração capaz de reconhecer o outro como irmão. E talvez seja justamente disso que mais precisamos quando chega o tempo de escolher os caminhos que desejamos para a nossa sociedade. A eleição não deveria ser uma guerra entre pessoas, mas um momento de responsabilidade, consciência e esperança. O voto passa pelas nossas mãos, mas suas consequências chegam à vida de muitos. Por isso, escolher exige mais do que paixão: exige discernimento, consciência e compromisso com o bem comum.

Francisco nos ensina a olhar primeiro para aqueles que muitas vezes não são vistos. O pobre, o pequeno, o doente, o abandonado, aquele que não tem voz, aquele que espera por uma oportunidade, aquele que vive esquecido nas periferias da nossa sociedade. Seu coração encontrou Deus justamente quando aprendeu a aproximar-se dos últimos. É impossível contemplar a vida de Francisco sem perceber que uma sociedade verdadeiramente humana precisa colocar a dignidade das pessoas no centro de suas preocupações. Nos dias de eleição, talvez devêssemos perguntar menos “quem está comigo?” e mais “quem precisa de nós?”. Porque uma escolha verdadeiramente responsável não pode nascer apenas daquilo que nos beneficia, mas também da preocupação com aqueles cuja realidade é tão diferente da nossa.

E há ainda uma grande lição franciscana para os nossos dias: a paz. Francisco nos ensina que discordar não significa odiar. Podemos pensar diferente, defender convicções diferentes e fazer escolhas diferentes sem transformar o outro em inimigo. Precisamos reaprender a conversar, a escutar e até mesmo a discordar com respeito. Nenhuma eleição deveria ser capaz de destruir uma família, romper uma amizade ou fazer um irmão deixar de enxergar o outro como irmão. A política pode dividir opiniões, mas não deveria dividir corações. Quando transformamos o adversário em inimigo, perdemos algo muito maior do que uma discussão: perdemos a capacidade de construir juntos.

Por isso, quando estivermos diante da urna, que possamos levar conosco também um pouco do espírito de Assis. Que nossas escolhas sejam feitas com consciência, responsabilidade e esperança. Que saibamos olhar para além das promessas e dos discursos e recordar que, por trás de cada decisão política, existem vidas concretas. Que não nos deixemos dominar pelo ódio, pela mentira ou pela intolerância. E que, depois que as urnas forem fechadas, saibamos continuar vivendo como irmãos, porque os candidatos passam, os mandatos passam, as eleições passam, mas o povo permanece. Talvez esta seja a grande inspiração de São Francisco para os nossos dias: escolher sem odiar, discordar sem destruir, participar sem ferir e servir sem esquecer os pequenos. No fim, mais importante do que perguntar apenas quem venceu uma eleição é perguntar que tipo de sociedade estamos construindo e que tipo de povo queremos ser. E Francisco, com sua vida simples e apaixonada pelo Evangelho, parece ainda nos sussurrar uma resposta: um povo que saiba cuidar, perdoar, servir e amar. Um povo que, mesmo em meio às diferenças, nunca se esqueça de chamar o outro de irmão.

Dom Murilo Paiva
Arcebispo Metropolitano de São Paulo


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