Meditação Franciscana Diária: NEGRA MARIAMA E O ESCRAVAGISMO NO BRASIL

 


NEGRA MARIAMA E O ESCRAVAGISMO NO BRASIL

“Derrubou do trono os poderosos e elevou os humildes.” Lucas 1,52

Ao reverenciar Nossa Senhora Aparecida, também revisitamos a história do Brasil e lembramos dos milhões de negros homens, mulheres e crianças que foram arrancados de suas terras, separados de suas famílias, vendidos como objetos e submetidos a escravidão. Recordamos os corpos explorados, as religiões desrespeitadas e os sonhos silenciados por aqueles que acreditavam que algumas vidas tinham mais valor. Por séculos, o Brasil prosperou às custas do trabalho forçado das pessoas escravizadas. Mesmo após a abolição oficial da escravidão em 1888, a liberdade não veio acompanhada de justiça, reparação, terra, educação e oportunidades iguais para TODOS. Embora a Lei Áurea tenha legalmente encerrado a escravidão, não desmontou as estruturas de exclusão que permaneceram por séculos e ainda permanecem É justamente na imagem de Aparecida achada nas águas, quebrada, negra e humilde que contemplamos a Negra Mariama. Ela não escolheu se manifestar nos palácios do império ou aos olhos dos grandes senhores de engenho, mas sim nas mãos calejadas de três pescadores simples. Em sua pequenez, Mariama se fez irmã dos marginalizados, mãe dos oprimidos e voz silenciosa que clama contra a injustiça.

Na tradição franciscana abraçar o Cristo Crucificado significa abraçar as feridas da história e reconhecer nos irmãos o próprio rosto do Redentor, que continua a ser despojado e marginalizado no preconceito cotidiano, na violência urbana e na desigualdade social.
Mariama nos ensina o verdadeiro Magnificat, a fé não é conformismo, mas força transformadora. Ela nos convoca a ir além da devoção labial e assumir um compromisso concreto com a fraternidade, a reparação histórica e o combate a todo tipo de racismo. Não haverá paz nem reino de Deus enquanto a dignidade de cada filho e filha de Deus não for plenamente respeitada.

Ao seguirmos os passos de São Francisco somos chamados a ser construtores ativos desse novo amanhã. Que o futuro do Brasil que desejamos não seja escrito pela omissão dos bons, mas pelo compromisso diário com a justiça social, pela escuta aos que foram silenciados e pelo abraço fraterno a cada irmão e irmã. Que a transformação comece em nossos gestos, em nossas comunidades e em nossas escolhas.
Oremos pela Libertação e pela Justiça no Brasil.

+ Frei Dom Lorenzo Maria Ravassi
Bispo Auxiliar de São Paulo
Vigário-Geral Arquidiocesano










 

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