IN MEDITAÇÃO FRANCISCANA DIÁRIA - PAZ E BEM - 21/10/2026
QUANDO OS PREGADORES DO CÉU SE TORNAM MERCADORES DO INFERNO
“Ai de vós também, doutores da Lei! Porque impondes aos homens fardos insuportáveis, e vós mesmos nem com um dedo os tocais.” (Lc 11,46)
Queridos irmãos e irmãs, Paz e Bem!
Há sacerdotes que falam incessantemente sobre condenação, fogo eterno, pecado e castigo, mas parecem esquecer que o Evangelho também denuncia a ganância, a hipocrisia, a soberba e a exploração dos pequenos. Erguem a voz para ameaçar os fiéis com as chamas do inferno, mas permanecem em silêncio diante das injustiças que alimentam aqui mesmo, na terra.
Pregam a pobreza como virtude, mas acumulam riquezas. Falam de desprendimento, mas agarram-se aos privilégios. Exigem conversão dos outros, mas não permitem que a Palavra de Deus atravesse as próprias máscaras. Transformam o altar em palanque de condenação, enquanto o dinheiro, o poder e o prestígio se tornam seus verdadeiros senhores. E, assim, aquilo que deveria ser anúncio de libertação converte-se em instrumento de medo e dominação.
Ai de nós quando a batina se torna esconderijo da vaidade! Ai de nós quando a pregação do céu serve para amedrontar os pobres, enquanto os poderosos são poupados da denúncia! Ai de nós quando falamos tanto da vida eterna que nos esquecemos de defender a vida daqueles que sofrem agora!
São Francisco de Assis não reconstruiu a Igreja acumulando tesouros, mas despojando-se de tudo para seguir o Cristo pobre e crucificado. Não fez dos pobres um tema de discurso, fez deles seus irmãos. Não anunciou um Deus distante, interessado em condenar, mas um Pai de misericórdia, que nos chama à conversão e nos ensina a reconhecer Cristo nos últimos, nos famintos, nos abandonados e nos esquecidos.
Isso não significa que o inferno, o pecado ou o juízo de Deus devam ser silenciados. Significa que não podemos falar da condenação alheia enquanto nos recusamos a examinar a própria consciência. Jesus foi duríssimo com a hipocrisia religiosa, especialmente quando aqueles que deveriam conduzir o povo a Deus transformavam a fé em fardo para os outros e em privilégio para si mesmos.
A Igreja não precisa de pregadores que apontem o inferno para todos, mas de pastores que tenham coragem de denunciar o pecado inclusive o próprio. Sacerdotes que não usem o Evangelho para dominar consciências, mas para libertá-las; que não façam da fé um negócio, mas um serviço; que não acumulem para si aquilo que deveria ser partilhado com os necessitados.
Porque o verdadeiro escândalo não está apenas em falar do inferno. Está em anunciar o Deus do amor e agir contra o amor, em celebrar a Eucaristia e desprezar os famintos, em proclamar Cristo pobre e viver ajoelhado diante da riqueza.
Que São Francisco nos ensine a desconfiar de toda santidade que não produz humildade, de toda pregação que não gera misericórdia e de toda religião que promete o céu, mas abandona os pobres à cruz. Afinal, não seremos reconhecidos pelo tamanho de nossos púlpitos, pela força de nossas ameaças ou pelo brilho de nossas vestes, mas pelo amor que tivemos coragem de viver.
+ Frei Dom Lorenzo Maria Ravassi
Arcebispo Metropolitano Eleito de São Paulo